Melro-azul: joia das escarpas

Melro-azul: joia das escarpas
©Cristiano Tedesco

Melro-azul: joia das escarpas

20 agosto de 2025

Um cintilar azul na escarpa, e um assobio melódico: são estes os sinais de um melro-azul (Monticola solitarius) – a ave do cartaz deste ano do Festival. Em Portugal, esta espécie é uma presença discreta, mas regular, em falésias costeiras, escarpas rochosas do interior e até em algumas zonas urbanas.

Azul sim, melro nem por isso

O seu nome vem do tom azul-acinzentado do macho, que brilha ao sol, contrastando com as asas escuras. Já as fêmeas e juvenis, de tons escuros, são mais difíceis de distinguir do melro-preto. No entanto, o melro-azul é um pouco mais pequeno que o melro-preto e tem um ar mais esguio, com o bico e as asas compridos. Por vezes, o melro-azul pode também ser confundido com o melro-das-rochas (Monticola saxatilis), mas este distingue-se pela cauda e peito de cor-de-fogo. Na Ásia, esta distinção torna-se mais difícil, pois aí a subespécie de melro-azul que ocorre (Monticola solitarius philippensis) tem o peito e a parte inferior da cauda dos mesmos tons que o melro-das-rochas!

Apesar do nome comum, esta espécie não é propriamente um melro: estudos genéticos mostraram que é um parente mais próximo dos chascos e papa-moscas do que dos melros e tordos.

Das fragas às bagas: o que o melro-azul precisa para viver

O seu nome científico, Monticola solitarius, não podia ser mais adequado: habitante da montanha solitário. De facto, o melro-azul tem tendência a viver isolado ou em casais, defendendo com afinco o seu território. O macho, empoleirado num penedo ou muro, solta um canto melodioso que ecoa nas encostas e nas aldeias de pedra. Este canto, doce e penetrante, é uma das formas mais eficazes de afirmar a posse do território e de atrair uma fêmea.

Habitante das encostas íngremes, o melro-azul está amplamente distribuído desde o sul da Europa até ao norte de África e à Ásia. Em Portugal encontra condições favoráveis sobretudo no litoral rochoso do Algarve, Alentejo e Centro, mas também no interior, em serras com abundância de penedos e encostas pedregosas. Curiosamente, em algumas localidades chegou a adaptar-se a ambientes humanizados, nidificando em ruínas, castelos e pedreiras abandonadas.

No Algarve, Sagres é uma das melhores zonas para observar esta espécie.

A escolha do habitat está intimamente ligada à sua dieta. O melro-azul alimenta-se principalmente de insetos e outros invertebrados, mas no outono e inverno não dispensa bagas e pequenos frutos, o que a ajuda a superar a escassez de presas. A proximidade de vegetação natural que produza este alimento é, por isso, importante para a sua sobrevivência.

As próximas gerações

Na Península Ibérica, a época de reprodução do melro-azul começa em finais de abril e estende-se até meados de julho. O ninho consiste numa pequena taça de ervas secas, raízes e musgos, forrada com materiais mais delicados como penas e ervas macias. Raramente está à vista. Escondido numa fenda de rocha, sob uma saliência íngreme ou até no muro de um castelo, ruína ou edifício antigo, surge sempre num local protegido, a dois a cinco metros do chão. Entre três e seis ovos ficam então ao cuidado da fêmea, que os incuba durante cerca de duas semanas. Quando eclodem, o casal partilha a tarefa de alimentar as crias, numa azáfama constante de voos curtos para levar insetos ao ninho, até que os juvenis estejam prontos para se aventurar pelo mundo.

Apesar do seu estatuto relativamente seguro a nível global, o melro-azul não está imune a ameaças. A perda de habitat natural – por exemplo com a construção de estâncias turísticas –, a perturbação em falésias costeiras muito frequentadas e a transformação de zonas rurais tradicionais podem afetar a disponibilidade de locais de nidificação e alimentação.

Um embaixador das paisagens rochosas

Encontrar um melro-azul é sempre motivo de encanto. O brilho azul do macho quando o sol está de feição, contrastando com o cinzento da pedra, é um espetáculo que prende a atenção mesmo de quem não é ornitólogo. Ao mesmo tempo, esta ave recorda-nos o valor dos ambientes rochosos — tantas vezes considerados pouco produtivos — que são, afinal, refúgio de biodiversidade única.

Ao proteger falésias, escarpas e ruínas históricas, estamos também a proteger o melro-azul e muitas outras espécies que delas dependem. A sua presença é um símbolo de equilíbrio entre natureza e património cultural, lembrando-nos que a beleza pode surgir nos locais mais áridos e pedregosos.